terça-feira, 31 de janeiro de 2017

Carta de apresentação

          Sabe quando a cabecinha da gente trabalha tanto, pensa em um monte de coisa, articula tanta coisa que parece que vai transbordar? Pois bem, crio hoje esse espaço de relatos para deixar fluir os conteúdos que me transbordam. Mas antes de expor o que há de mais complexo e profundo na minha existência, acho justo me apresentar para quem não me conhece e me reapresentar para quem me conhece a muito tempo, afinal de contas, as coisas mudam. Ainda bem!

        Muita coisa começou a mudar na minha vida desde o momento em que eu decidi por não fazer meu doutorado, não seguir fielmente o caminho que eu havia traçado pra mim há tanto tempo que não me lembro nem o porquê. Ao flexibilizar minhas escolhas, abri o caminho para novas possibilidades, inclusive para muitas que eu nem imaginava possível. Mas assim, sem planejar, comecei a caminhar em direção ao veganismo. 
          Logo eu que nunca tive pretensões de tornar-me vegetariana. Logo eu que sempre disse (assim como muitos) que “somos onívoros, precisamos de carne” ou “a extração da soja causa tanto, ou mais, impacto ambiental do que a pecuária”. Logo eu que achava saber tanto sobre mim e sobre o mundo; resolvi mudar de perspectiva, redescobrir, reinventar, olhar diretamente para o que eu não queria ver, tanto em mim quanto no meu impacto no mundo.
             
           Muitos caminhos levam ao veganismo e eu não cheguei aqui por apenas uma via. Um deles, a sustentabilidade, sempre foi um tema importante para mim. Eu gosto de dizer que minha forma de ver a vida foi fortemente moldada pela época do ‘apagão’ da década de 90. Desde cedo, aprendi o valor e a finitude dos recursos naturais e a evitar desperdícios. Cresci para tornar-me bióloga, aplicada na missão de salvar o mundo! Achava que o caminho para tanto morava na minha formação acadêmica, tinha sede de forma-me doutora e impactar fortemente o planeta com minhas pesquisas na área de conservação. Eu me considerava um exemplo de vida sustentável, simplesmente por eu apagar umas luzes e abastecer com Etanol. Sem olhar para a principal forma de impacto de uma pessoa no mundo: a alimentação.
          Eu me enchia de motivos para não enxergar que, ao consumir carne, eu estava financiando o desmatamento da Amazônia, o esgotamento dos solos e contaminação de mananciais. Ao consumir camarão, EU dava apoio à destruição dos ecossistemas costeiros. Ao comer um peixinho (que mal faz comer um peixinho?), EU estava não apenas contribuindo, mas ATUANDO no esgotamento do ecossistema marinho. Comer é um ato agrícola e são as nossas escolhas no prato que determinam como o nosso planeta é explorado.

         Mais fácil de perceber (porém nem tanto) é como as escolhas no prato afetam a nossa saúde, e esse foi mais um motivo que me deu um empurrãozinho para o veganismo. Eu passei maior parte da minha vida com a saúde bem frágil e, aos 20 anos, levei um grande susto ao ser diagnosticada com uma doença autoimune. Mas essa é uma outra história que terei que contar. O que importa para o que eu estou tentando falar, é que essa experiência me ensinou que eu tenho muito mais controle sobre a minha saúde do que eu jamais imaginei. 
Assim, ao buscar saúde na decisão de tirar carne da minha alimentação, foi estranho quando comecei a ficar doente por muito tempo, uma gripezinha, uma crise alérgica que não me largava por semanas... A primeira coisa que a pessoa pensa é o que? -Não estou comendo proteínas o suficiente (como se isso sequer fosse possível). Mas depois me veio outra ideia: O LEITE! Vínhamos acompanhando na minha família como o leite trazia um impacto forte na saúde do meu avô em forma de uma secreção fina e constante, exatamente o que eu estava sentindo.
Cortei laticínios para fazer um experimento, torcendo fortemente para que eu estivesse errada. Afinal, QUEIJO! Como eu iria viver sem QUEIJO?! Apenas dois dias foram o suficiente para eu perceber que a minha rinite da vida toda tinha um vilão disfarçado de amigo, e surgiu a necessidade de fazer mais um corte na minha alimentação. O corte mais difícil, sem dúvidas, afinal, QUEIJO!

Para a maior parte dos veganos, a compaixão pelos animais não-humanos é a primeira e principal motivação. Mas para mim, isso nunca tocou muito. Vi inclusive alguns daqueles documentários horrorosos, sem muito impacto. Não foi por isso que me tronei vegetariana. Mas quando já estava com uma alimentação quase estritamente vegetal, a compaixão chegou a mim, me abraçou e me fez perceber que estava na hora de eu assumir o veganismo.
      Foi pela Amazônia que renunciei a carne, pela saúde que renunciei o leite, pelas galinhas que renunciei o ovo. E é por mim que eu eu continuo essa jornada do veganismo. Hoje, tenho uma alimentação vegetariana estrita; quanto aos produtos de limpeza e higiene, procuro utilizar marcas não só veganas, como biodegradáveis; vestuários e acessórios, para mim é importante também comprar um produto que eu possa conferir que não veio de trabalho análogo ao escravo, afinal, pessoas também são animais e merecem minha compaixão.
   Mas falo em jornada do veganismo pois sei que minhas escolhas e meu comportamento ainda podem mudar muito. E falo que é por MIM que sigo nesse caminho pois quem mais ganhou com tudo isso fui eu. Muita gente chega pra mim afirmando "mas deve ter sido muito difícil no começo, hein!", e eu sempre respondo com a maior sinceridade: não, foi muito gostoso, na verdade, por ser um processo cheio de amor. Foi empoderador, pois me fez enxergar a vida com mais clareza e tomar decisões com mais firmeza. Foi e está sendo inspirador! Pois me levou a lugares e a pessoas que eu não teria conhecido de outra forma e a criar coisas como esse texto. É acolhedor! Pois me trouxe a um cantinho de paz e desenvolvimento espiritual. É amor, é amor. É simplesmente amor.



5 comentários:

  1. Amiga linda <3 Arrasa aí nessa transformação. Daí de dentro e do mundo. Te sigo com passinhos curtos, mas tamo junto! Tats

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  2. Amiga tenho tanto orgulho e me inspiro tanto em tu. Acho linda essa tua forma de simplesmente ir!
    "Vamos pro mundo,
    Que o mundo é a nossa casa.
    Solta a tua gargalhada e vamos juntos..." (Oswaldo Montenegro) 😘

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  3. Esperando o próximo vento com cheirinho de alecrim ❤🍉

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  4. Alice querida, toda mudança requer muita coragem. Parabéns, pelas mudanças em sua vida e pela linda iniciativa em compartilhar conosco tudo isso.
    Tem uma frase de Dom Helder Câmara que eu gosto muito: "Feliz de quem entende que é preciso mudar muito para continuar o mesmo".

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