segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

Evolução vs. Elevação

        Eu fiz minha primeira tatuagem quando passei na minha (tão sonhada) seleção de mestrado para USP. Ela fica na costela, então geralmente ninguém vê. Mas quando tá a mostra, sempre chega alguém perguntando do que se trata, até porque um senhor fumando cachimbo seguido por 3 patinhos não é uma imagem comum.
              Então, eu explico que esse cara se chama Konrad Lorenz e é um dos fundadores da Etologia, ciência que estudei e que aborda o estudo do comportamento de uma forma mais evolutiva. E os patinhos estão alí pois Lorenz descreveu um fenômeno comportamental que acontece com muitas aves, a estampagem. Quando os patinhos saem do ovo, o primeiro objeto visto, com tamanho grande o suficiente e que se mova, é estampado na mente do animal, que passa a segui-lo como modelo. Geralmente, eles estapam a sua mãe, a dona pata, mas nesse caso o estampado e seguido foi o próprio pesquisador.
          A estampagem é um fenômeno instintivo. Desde a época de Lorenz até agora, passamos a entender instinto de uma forma diferente. Quando a Etologia surgiu, instinto era algo imutável, um plano fixo de ação, algo que o animal nasce sabendo e pronto. Hoje, o que se compreende (ou, pelo menos, o que eu compreendo) é que comportamento instintivo é aquele moldado pelo histórico evolutivo da espécie, é o que permite que um animal seja bem sucedido no ambiente em que habita sem precisar descobrir cada ação por tentativa e erro. No caso dos patinhos, ao rapidamente aprender que precisa seguir a mãe, ele poderá seguir aprendendo como ser um patinho funcional.
    Por estudar comportamento (no meu caso, comportamento social de macacos prego) com essa abordagem, foi no Instituto de Psicologia que eu, bióloga formada, fui realmente aprender sobre evolução. Mas aprendi também que muita gente não tem a menor ideia do que Darwin realmente falou.

            Recentemente eu tive a oportunidade de (tentar) conduzir uma roda de diálogo sobre evolução e eu pude conferir isso. Perguntei a um grupo de umas 25 pessoas (adultas, educadas) qual a primeira coisa que elas pensavam quando eu falo em evolução: crescimento, melhoria, elevação. De repente: ADAPTAÇÃO! Mas não valeu, tinha bióloga na roda.
           E você que me lê? Pensa em quê quando você fala em evolução? Digo "você fala", pois mesmo que você não fale propriamente no assunto, acredito que a definição que você tem do tema afeta profundamente a forma como você se comporta e as escolhas que faz. Quando alguém acredita que a evolução funciona de maneira direcionada como em uma escadinha - evoluiu, subiu! - Ela coloca QUEM no topo da escada? Certamente, não uma barata! Mesmo que estejamos carecas de saber que uma barata pode sobreviver condições extremas que exterminariam a espécie humana. Ainda assim, a educação que recebemos nos faz pensar que estamos no topo, top,top! Topíssimo!


               Não é mesmo?
              Ai como essa imagem me entristece! Não que o diagrama esteja propriamente errado, mas ele nos leva a duas conclusões que são completamente errôneas: primeiro, que o ser humano vem do macaco (e se você ainda tem dúvidas sobre isso, me manda uma mensagem que eu te explico). Segundo, essa noção de que o ser humano é mais evoluído que outras espécies.
             Então vamos mais uma vez ao que eu entendo por evolução. Para isso, vamos voltar a 1859 quando Darwin compilou suas ideias num livro chamado "A Origem das Espécies". Nessa época, o cristianismo imperava no mundo e as pessoas (todas elas!) acreditavam que Deus criou as plantas e os animais, perfeitos! exatamente como são. E o ser humano, criado à imagem e semelhança de Deus, mais perfeito ainda! Em Galápagos, a genialidade de Darwin conseguiu observar que os seres vivos possuem uma origem comum, se diferenciam pelo fenômeno da transmutação das espécies e sofrem a ação da seleção natural. Assim, o ser humano passa a ser compreendido como mais um animal.
              Mas faltou eu falar da ADAPTAÇÃO, aquilo que a bióloga gritou no começo da história. Evolução é adaptação pois sobrevive não o mais forte, mas o mais apto a viver e reproduzir no ambiente em que habita, o mais ADAPTADO. Sendo assim, cada espécie vivente que se desenvolve e multiplica de forma bem sucedida no ambiente, é uma espécie extremamente evoluída!
            Se formos parar para pensar, existem bactérias super resistentes que conseguem alterar seu material genético de maneira tão excepcional que nem nós, tão poderosos humanos, conseguimos destruí-las. Há espécies, como de tardígrados (um bichinho que vale a pena dar um google), que conseguem sobreviver a condições ainda mais extremas do que as famosas baratas; eles sobreviveram simplesmente às últimas 5 extinções em massa que ocorreram no planeta. E as plantas? Que evoluíram de de tal forma que são capazes de produzir o próprio alimento! Por que então NÓS pensamos ser, assim, tão superior aos outros seres?
                 Vou me render em um ponto: os seres humanos são a espécie com a maior capacidade de alterar o ambiente em que vivem. Ao construir abrigos, represar água, dominar a agricultura e a pecuária, o homem saiu colonizando os quatro cantos do planeta, formando grupos cada vez maiores. A maior complexidade social desses grupos, por sua vez, exerceu uma pressão seletiva para uma maior habilidade cognitiva. Isso permitiu que o homem, através de uma série de mudanças comportamentais, se tornasse cada vez mais eficiente em alterar o planeta modificando, inclusive, as pressões seletivas que continuam regendo a nossa evolução.
           Dessa forma, diferimos de outros animais. Somos muito sabidos, sapientes, ou seja, sabemos que sabemos. E agora você também sabe que a evolução não funciona como uma escada, evolução não é finalista, não tem um rumo definido. Agora você sabe, que com seu comportamento e suas escolhas, você contribui para o futuro da história evolutiva não apenas da nossa espécie, como do nosso planeta. Te convido a pensar sobre isso e, em breve, eu posto um texto sobre o que tudo isso tem haver com veganismo.