quinta-feira, 16 de março de 2017

Nutella, óleo de palma e outros problemas

Ontem eu postei no stories do instagram que eu fiz uma "nutella vegana" em casa. Recebi uma "enxurrada" de pedidos pela receita, inclusive de pessoas não veganas, o que me deixou muito feliz. É muito bom ver pessoas de todas as esferas buscando opções mais saudáveis, ambientalmente conscientes e compassivas nas suas vidas.
Nutella é uma delícia. Mas deixa eu te listar não um, mas três probleminhas que eu vejo no consumo desse alimento. O primeiro deles é a saúde. Nutella é um creme de avelã, certo?

É, depois de encontrar uma imagem dessas, acho que a resposta a essa pergunta é: errado. Tá mais pra creme de açúcar, na minha opinião. O açúcar, além de ser um alimento extremamente calórico de baixo valor nutricional, ele ainda é capaz de "roubar" nutrientes de outros alimentos por prejudicar sua absorção. Também facilita a propagação de fungos e bactérias prejudiciais à saúde, por alimentar e facilitar o crescimento das colônias desses microrganismos patogênicos. Além de levar a distúrbios de saúde como a diabetes, está ligado a casos de câncer, envelhecimento precoce, hiperatividade, irritabilidade, ansiedade, queda no desempenho do cérebro e problemas de memória e aprendizagem. Detalhe é que eu estou escrevendo essa lista só espiando uma matéria num jornal online. Ou seja, a lista de prejuízos a saúde de uma dieta rica em açúcar é muuuito mais longa! Mas vamos seguir em frente.

O segundo problema é aquele velho conhecido dos veganos. O leite e a exploração de uma outra espécie em nosso "benefício" (entre aspas, pois poderia fazer uma lista igualmente assustadora sobre os malefícios do leite à saúde humana). Mas não vou faze-la, tampouco irei dar um sermão sobre compaixão agora. 

Quer dizer, mas ou menos. Meu próximo, último e principal problema com a Nutella tem nome e sobrenome: óleo de palma. Um ingrediente vegano,certo? Mais uma vez, lá vem eu pra dizer: errado! Óleo de palma é um ingrediente 100% vegetal, mas não é só nisso que se baseia o veganismo. E vamos apenas pensar na alimentação vegana aqui: a alimentação vegana se diferencia da alimentação vegetariana estrita por se restringir a produtos que não acarretem em sofrimento e morte de animais. E o óleo de palma, que tem 85% da sua produção centrada na Indonésia e Malásia, figura como um grande inimigo dos animais por causar o desmatamento e perda de habitat de diversas espécies asiáticas, entre elas, o Orangotango-de-Sumatra e o Orangotango-de-Bornéu.
O óleo de palma é muito comum em produtos prontos, como salgadinhos, misturas de bolo, sopa enlatada e até papinha de neném. Encontrei por aí que esse ingrediente está presente em mais da metade dos produtos embalados nos supermercados dos Estados Unidos. Então aqui eu quero chamar a atenção de vocês para o consumo não só de Nutella, mas de diversos produtinhos tão fáceis de comer. E lembrar a vocês que, assim como a famosa Nutella, esses produtos industrializados e ultra-processados chegam no seu corpo junto com uma longa lista, como aquela do início do texto, de prejuízos à saúde. Vamos repensar nossos hábitos, se não pelos orangotangos, por você mesmo! Que é o melhor e mais verdadeiro motivo.

Mas agora vamos à receita - E se você pulou toda a minha ladainha e veio direto até aqui, eu encarecidamente lhe peço para voltar ao texto enquanto estiver esperando as avelãs no forno ou amornar.

Pra começar, essa receitinha vem do Tempero Alternativo, com uma mínima alteração. Então você também pode ler por lá o sermão dos orangotangos - 
(http://temperoalternativo.com.br/2015/06/22/creme-de-avela-com-cacau-tipo-nutella/)

Ingredientes:  

1 xícara e meia de avelã
Meia xícara de açúcar de coco (pode usar açúcar mascavo)
1/3 de xícara de cacau
200ml de leite de coco (ou outro leite vegetal)
2 colheres de sopa de Óleo de coco
Meia colher de chá de estrato de baunilha (opcional)

Como fazer:

Primeiro, espalhe as avelãs numa assadeira e leve ao forno pré-aquecido em fogo baixo por cerca de 10min. Vai subir um cheirinho delícia, cuidado para não deixar queimar. 
Segundo, quando as avelãs estiverem frias, você vai esfrega-las umas nas outras para descascar, pega um punhado e esfrega! Essa é a parte (única parte) que dá trabalho.
Depois, bate num liquidificador ou processador de alimentos até virar uma farofa bem fininha e molhada, pois a avelã irá soltar um óleo próprio. É aí que você vai adicionar o restante dos ingredientes e bater até tudo ficar bem misturadinho. 
A princípio, o creme vai ficar meio líquido. Desejei até ter colocado o leite de coco aos poucos para atingir uma textura mais consistente. Mas depois que transferi para potinhos e coloquei na geladeira, ele ficou com aquela carinha de Nutella. Dura cerca de 1 semana, ou será que dura.
Essa receita rende bastante! Super rola fazer meia receita. :)








segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

Evolução vs. Elevação

        Eu fiz minha primeira tatuagem quando passei na minha (tão sonhada) seleção de mestrado para USP. Ela fica na costela, então geralmente ninguém vê. Mas quando tá a mostra, sempre chega alguém perguntando do que se trata, até porque um senhor fumando cachimbo seguido por 3 patinhos não é uma imagem comum.
              Então, eu explico que esse cara se chama Konrad Lorenz e é um dos fundadores da Etologia, ciência que estudei e que aborda o estudo do comportamento de uma forma mais evolutiva. E os patinhos estão alí pois Lorenz descreveu um fenômeno comportamental que acontece com muitas aves, a estampagem. Quando os patinhos saem do ovo, o primeiro objeto visto, com tamanho grande o suficiente e que se mova, é estampado na mente do animal, que passa a segui-lo como modelo. Geralmente, eles estapam a sua mãe, a dona pata, mas nesse caso o estampado e seguido foi o próprio pesquisador.
          A estampagem é um fenômeno instintivo. Desde a época de Lorenz até agora, passamos a entender instinto de uma forma diferente. Quando a Etologia surgiu, instinto era algo imutável, um plano fixo de ação, algo que o animal nasce sabendo e pronto. Hoje, o que se compreende (ou, pelo menos, o que eu compreendo) é que comportamento instintivo é aquele moldado pelo histórico evolutivo da espécie, é o que permite que um animal seja bem sucedido no ambiente em que habita sem precisar descobrir cada ação por tentativa e erro. No caso dos patinhos, ao rapidamente aprender que precisa seguir a mãe, ele poderá seguir aprendendo como ser um patinho funcional.
    Por estudar comportamento (no meu caso, comportamento social de macacos prego) com essa abordagem, foi no Instituto de Psicologia que eu, bióloga formada, fui realmente aprender sobre evolução. Mas aprendi também que muita gente não tem a menor ideia do que Darwin realmente falou.

            Recentemente eu tive a oportunidade de (tentar) conduzir uma roda de diálogo sobre evolução e eu pude conferir isso. Perguntei a um grupo de umas 25 pessoas (adultas, educadas) qual a primeira coisa que elas pensavam quando eu falo em evolução: crescimento, melhoria, elevação. De repente: ADAPTAÇÃO! Mas não valeu, tinha bióloga na roda.
           E você que me lê? Pensa em quê quando você fala em evolução? Digo "você fala", pois mesmo que você não fale propriamente no assunto, acredito que a definição que você tem do tema afeta profundamente a forma como você se comporta e as escolhas que faz. Quando alguém acredita que a evolução funciona de maneira direcionada como em uma escadinha - evoluiu, subiu! - Ela coloca QUEM no topo da escada? Certamente, não uma barata! Mesmo que estejamos carecas de saber que uma barata pode sobreviver condições extremas que exterminariam a espécie humana. Ainda assim, a educação que recebemos nos faz pensar que estamos no topo, top,top! Topíssimo!


               Não é mesmo?
              Ai como essa imagem me entristece! Não que o diagrama esteja propriamente errado, mas ele nos leva a duas conclusões que são completamente errôneas: primeiro, que o ser humano vem do macaco (e se você ainda tem dúvidas sobre isso, me manda uma mensagem que eu te explico). Segundo, essa noção de que o ser humano é mais evoluído que outras espécies.
             Então vamos mais uma vez ao que eu entendo por evolução. Para isso, vamos voltar a 1859 quando Darwin compilou suas ideias num livro chamado "A Origem das Espécies". Nessa época, o cristianismo imperava no mundo e as pessoas (todas elas!) acreditavam que Deus criou as plantas e os animais, perfeitos! exatamente como são. E o ser humano, criado à imagem e semelhança de Deus, mais perfeito ainda! Em Galápagos, a genialidade de Darwin conseguiu observar que os seres vivos possuem uma origem comum, se diferenciam pelo fenômeno da transmutação das espécies e sofrem a ação da seleção natural. Assim, o ser humano passa a ser compreendido como mais um animal.
              Mas faltou eu falar da ADAPTAÇÃO, aquilo que a bióloga gritou no começo da história. Evolução é adaptação pois sobrevive não o mais forte, mas o mais apto a viver e reproduzir no ambiente em que habita, o mais ADAPTADO. Sendo assim, cada espécie vivente que se desenvolve e multiplica de forma bem sucedida no ambiente, é uma espécie extremamente evoluída!
            Se formos parar para pensar, existem bactérias super resistentes que conseguem alterar seu material genético de maneira tão excepcional que nem nós, tão poderosos humanos, conseguimos destruí-las. Há espécies, como de tardígrados (um bichinho que vale a pena dar um google), que conseguem sobreviver a condições ainda mais extremas do que as famosas baratas; eles sobreviveram simplesmente às últimas 5 extinções em massa que ocorreram no planeta. E as plantas? Que evoluíram de de tal forma que são capazes de produzir o próprio alimento! Por que então NÓS pensamos ser, assim, tão superior aos outros seres?
                 Vou me render em um ponto: os seres humanos são a espécie com a maior capacidade de alterar o ambiente em que vivem. Ao construir abrigos, represar água, dominar a agricultura e a pecuária, o homem saiu colonizando os quatro cantos do planeta, formando grupos cada vez maiores. A maior complexidade social desses grupos, por sua vez, exerceu uma pressão seletiva para uma maior habilidade cognitiva. Isso permitiu que o homem, através de uma série de mudanças comportamentais, se tornasse cada vez mais eficiente em alterar o planeta modificando, inclusive, as pressões seletivas que continuam regendo a nossa evolução.
           Dessa forma, diferimos de outros animais. Somos muito sabidos, sapientes, ou seja, sabemos que sabemos. E agora você também sabe que a evolução não funciona como uma escada, evolução não é finalista, não tem um rumo definido. Agora você sabe, que com seu comportamento e suas escolhas, você contribui para o futuro da história evolutiva não apenas da nossa espécie, como do nosso planeta. Te convido a pensar sobre isso e, em breve, eu posto um texto sobre o que tudo isso tem haver com veganismo.
              
    


            

terça-feira, 31 de janeiro de 2017

Carta de apresentação

          Sabe quando a cabecinha da gente trabalha tanto, pensa em um monte de coisa, articula tanta coisa que parece que vai transbordar? Pois bem, crio hoje esse espaço de relatos para deixar fluir os conteúdos que me transbordam. Mas antes de expor o que há de mais complexo e profundo na minha existência, acho justo me apresentar para quem não me conhece e me reapresentar para quem me conhece a muito tempo, afinal de contas, as coisas mudam. Ainda bem!

        Muita coisa começou a mudar na minha vida desde o momento em que eu decidi por não fazer meu doutorado, não seguir fielmente o caminho que eu havia traçado pra mim há tanto tempo que não me lembro nem o porquê. Ao flexibilizar minhas escolhas, abri o caminho para novas possibilidades, inclusive para muitas que eu nem imaginava possível. Mas assim, sem planejar, comecei a caminhar em direção ao veganismo. 
          Logo eu que nunca tive pretensões de tornar-me vegetariana. Logo eu que sempre disse (assim como muitos) que “somos onívoros, precisamos de carne” ou “a extração da soja causa tanto, ou mais, impacto ambiental do que a pecuária”. Logo eu que achava saber tanto sobre mim e sobre o mundo; resolvi mudar de perspectiva, redescobrir, reinventar, olhar diretamente para o que eu não queria ver, tanto em mim quanto no meu impacto no mundo.
             
           Muitos caminhos levam ao veganismo e eu não cheguei aqui por apenas uma via. Um deles, a sustentabilidade, sempre foi um tema importante para mim. Eu gosto de dizer que minha forma de ver a vida foi fortemente moldada pela época do ‘apagão’ da década de 90. Desde cedo, aprendi o valor e a finitude dos recursos naturais e a evitar desperdícios. Cresci para tornar-me bióloga, aplicada na missão de salvar o mundo! Achava que o caminho para tanto morava na minha formação acadêmica, tinha sede de forma-me doutora e impactar fortemente o planeta com minhas pesquisas na área de conservação. Eu me considerava um exemplo de vida sustentável, simplesmente por eu apagar umas luzes e abastecer com Etanol. Sem olhar para a principal forma de impacto de uma pessoa no mundo: a alimentação.
          Eu me enchia de motivos para não enxergar que, ao consumir carne, eu estava financiando o desmatamento da Amazônia, o esgotamento dos solos e contaminação de mananciais. Ao consumir camarão, EU dava apoio à destruição dos ecossistemas costeiros. Ao comer um peixinho (que mal faz comer um peixinho?), EU estava não apenas contribuindo, mas ATUANDO no esgotamento do ecossistema marinho. Comer é um ato agrícola e são as nossas escolhas no prato que determinam como o nosso planeta é explorado.

         Mais fácil de perceber (porém nem tanto) é como as escolhas no prato afetam a nossa saúde, e esse foi mais um motivo que me deu um empurrãozinho para o veganismo. Eu passei maior parte da minha vida com a saúde bem frágil e, aos 20 anos, levei um grande susto ao ser diagnosticada com uma doença autoimune. Mas essa é uma outra história que terei que contar. O que importa para o que eu estou tentando falar, é que essa experiência me ensinou que eu tenho muito mais controle sobre a minha saúde do que eu jamais imaginei. 
Assim, ao buscar saúde na decisão de tirar carne da minha alimentação, foi estranho quando comecei a ficar doente por muito tempo, uma gripezinha, uma crise alérgica que não me largava por semanas... A primeira coisa que a pessoa pensa é o que? -Não estou comendo proteínas o suficiente (como se isso sequer fosse possível). Mas depois me veio outra ideia: O LEITE! Vínhamos acompanhando na minha família como o leite trazia um impacto forte na saúde do meu avô em forma de uma secreção fina e constante, exatamente o que eu estava sentindo.
Cortei laticínios para fazer um experimento, torcendo fortemente para que eu estivesse errada. Afinal, QUEIJO! Como eu iria viver sem QUEIJO?! Apenas dois dias foram o suficiente para eu perceber que a minha rinite da vida toda tinha um vilão disfarçado de amigo, e surgiu a necessidade de fazer mais um corte na minha alimentação. O corte mais difícil, sem dúvidas, afinal, QUEIJO!

Para a maior parte dos veganos, a compaixão pelos animais não-humanos é a primeira e principal motivação. Mas para mim, isso nunca tocou muito. Vi inclusive alguns daqueles documentários horrorosos, sem muito impacto. Não foi por isso que me tronei vegetariana. Mas quando já estava com uma alimentação quase estritamente vegetal, a compaixão chegou a mim, me abraçou e me fez perceber que estava na hora de eu assumir o veganismo.
      Foi pela Amazônia que renunciei a carne, pela saúde que renunciei o leite, pelas galinhas que renunciei o ovo. E é por mim que eu eu continuo essa jornada do veganismo. Hoje, tenho uma alimentação vegetariana estrita; quanto aos produtos de limpeza e higiene, procuro utilizar marcas não só veganas, como biodegradáveis; vestuários e acessórios, para mim é importante também comprar um produto que eu possa conferir que não veio de trabalho análogo ao escravo, afinal, pessoas também são animais e merecem minha compaixão.
   Mas falo em jornada do veganismo pois sei que minhas escolhas e meu comportamento ainda podem mudar muito. E falo que é por MIM que sigo nesse caminho pois quem mais ganhou com tudo isso fui eu. Muita gente chega pra mim afirmando "mas deve ter sido muito difícil no começo, hein!", e eu sempre respondo com a maior sinceridade: não, foi muito gostoso, na verdade, por ser um processo cheio de amor. Foi empoderador, pois me fez enxergar a vida com mais clareza e tomar decisões com mais firmeza. Foi e está sendo inspirador! Pois me levou a lugares e a pessoas que eu não teria conhecido de outra forma e a criar coisas como esse texto. É acolhedor! Pois me trouxe a um cantinho de paz e desenvolvimento espiritual. É amor, é amor. É simplesmente amor.